outubro 28, 2015

Três botões


Empresta teu peito mais uma vez para que eu termine essa noite com teu cheio preso em mim. Me deixa contar e recontar os botões da tua camisa enquanto você me fala daqueles teus problemas da semana. Desculpa se posso não estar ouvindo, se a palavra saiu meio vaga e a cabeça voa longe, mas é que enquanto estou aqui, tô pensando nesses três primeiros botões. Tô pensando na linearidade ridícula que me fez pensar em tanta coisa que foge de linha, de rima, daqui. E faço refúgio em mim. Porque é a falta em mim que grita vez em sempre, mesmo aqui, recontando teus botões e ouvindo tua voz de fundo.
Deita mais uma vez aqui no meu colo, enquanto percorro os dedos pelos teus cabelos e a gente ouve aquela música bonitinha que descobrimos naquela viagem. E deixa ela tocar repetidas vezes, porque eu relembro da viagem, da estrada, da vontade grande, gritante, de ir. O verbo de cinco letras gravado na pele, com tanta vontade de ir e me levar. Vamos? Vem comigo. Quero te levar no bolso a cada canto, mesmo que não me encontre em canto algum. Porque me perdi entre os quilômetros, perdi certos pedaços e ganhei novas peças. Você me ajuda a reorganizar o que restou de mim?
Porque eu queria mesmo apenas suas mãos aqui, para que fosse mais fácil levantar desse mundo que me engole vez ou outra. Me tirar desse fosso que cada vez me engana, pois não há fundo algum. Mas é a sua mão aparecer ali na borda que eu consigo, é fácil. Você me liberta dos abismos de mim. E meu deus, menino, é tão difícil sozinha. Já foram tantas escaladas, tantos machucados, e pensar que precisava apenas de uma mão... E um braço, um colo, um cafuné de domingo. 
Ainda tropeço em pedras espalhadas, caio em buracos mal cobertos e despenco em pequenos desfiladeiros. Mas são apenas três botões, lembra? É mais uma história tua que eu não ouvi, mas que me salvou de mim. Obrigada. E sim, entendi, de fato incrível o que dissera. O assunto não lembro, o enredo ficou vago, mas eu só queria te dizer que as palavras em si serviram de consolo pra minha alma que vez ou outra precisa ser ouvida mesmo sem dizer nada. E você, menino, me ouve sem que eu precise dizer uma letra.

Queria tanto voltar, mas as palavras andam fugindo de mim...  

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