fevereiro 21, 2017

A faculdade vai ser o pior e o melhor período da sua vida

(já aviso que esse texto é baseado completamente em experiências particulares, ou seja, você pode ou não concordar/ter vivenciado nada disso) 

Eu acabei de terminar uma graduação e faz tempo que venho pensando em escrever umas coisinhas sobre. Vou começar com o clichê: 

A faculdade vai ser o pior e o melhor período da sua vida. 

Você vai chorar. Muito. Você vai chorar antes das provas. Você vai chorar depois das provas. Você vai chorar pelas avaliações pessoais e acadêmicas pelas quais vai passar. Você vai sair com tanta raiva de pessoas e professores em certas noites que vai ser difícil dormir. Você vai odiar o primeiro, o segundo e até mesmo o último ano da sua graduação. Você vai querer desistir um milhão de vezes. Você vai pensar e repensar se esse era o curso certo para você (e existe o curso certo no fim das contas?). Você vai se sentir injustiçado, amedrontado e muitas vezes solitário.  Porque você faz um curso sozinho, são suas provas, suas notas, seus problemas. Não tem família que vá para a diretoria reclamar, não há amigos que possam te dar uma mão em certos casos. Você vai cair e levantar sozinho todas as vezes. Você vai sentir uma vontade imensa de gritar, de fugir, de sumir. 

Mas ao mesmo tempo, quando aquele resultado de prova sair e você ver uma nota azul e um elogio, você vai querer pular, divulgar pelos corredores, fazer um cartaz. Porque você conseguiu. Você vai sentir um prazer imenso quando aquele professor dá uma aula que te inspira, e você vai comprar todos aqueles livros e ao fim de cada leitura sentir algo que te preenche (e te esvazia, porque quanto mais se lê mais é necessário que se leia). Você vai encontrar amigos (e vai perder os desnecessários). Você vai apresentar em eventos e sentir um frio no estômago toda vez. E vai querer chorar de alegria quando te elogiam e reconhecem o seu esforço. Você vai participar de projetos e pesquisas que vão te enriquecer de uma forma inimaginável, te darão tantas experiências (boas e ruins), tanta dor de cabeça, mas também reconhecimento. Porque você conseguiu mais uma vez. 

Você vai chegar no seu último dia e sentir grato por tudo que passou, por toda a ajuda que recebeu, por todo conhecimento que adquiriu. Mas, principalmente, vai sentir um alívio tão grande por ter acabado. E acabou, senhores e senhoras. Eu juro que não parece, que demora, mas um dia acaba. 

Você vai ter um histórico com todas as médias acima de 70. Você vai ter sido aprovado em todas as matérias sem nenhum exame. Você vai ter duas aprovações de mestrado.

E você vai estar morrendo de medo do próximo passo. Você vai estar mais uma vez diante desse mundo desconhecido que te amedronta, com medo dos choros e das avaliações (pessoais e acadêmicas) que te aguardam. 
Mas você vai.  

Não desista. 
dezembro 28, 2016

Fecha o bar



Fecha esse bar. Tranca a janela. Rasga logo a última folha do calendário. Adianta o relógio que não passa. Diminui as 96 horas que ainda faltam. O oxigênio está em estado crítico, as mãos já tremem e as pernas recusam-se a se mover. Não consigo mais. Não há quem consiga. As perdas foram poucas, mas significativas. E aqueles que sobreviveram, talvez não tenham de fato. Estamos respirando. Há sangue pulsando nas veias. As funções vitais ainda continuam. Mas eu não.
Eu fiquei. Os trezentos e tantos (mil) dias desse ano me dilaceraram em todos os seus minutos. Os segundos finais torturam minhas entranhas. A acidez dos dias corrói meu ser. Eu não consigo mais. Os pedaços de mim caem a cada passo e já não quero mais tentar recolher os que restaram (e algum restou?). Minha sanidade se esvai conforme todo esse ar poluído me consome. Me perco nas ruas, troco os nomes, esqueço quem sou. No que me tornei? Qual o resultado que levo desses dias? O que restou de mim não responde. Eu não me escuto mais. 
Escrevo agora em uma tentativa falha de arrancar tudo que dói, fede e apodrece em mim. Eu, podre, quebrada e vazia. Eu, que já não consigo escolher frases e dividir parágrafos de forma coerente. Eu, que desisti daqui. Eu que me perdi e não consigo mais voltar. Meu caminho foi apagado, minha casa não existe, meu destino está escuro. Há sempre uma irônica luz no fim dos túneis, mas eu não quero abrir os olhos.
E eu quis recusar abrir os olhos tantas vezes. Imaginava um carro desgovernado em uma estrada qualquer, na volta do trabalho, no caminho sem destinos. Uma pressa absurda para que tudo acabasse. Mas não acabou. As ruas da cidade se acostumaram com meus olhos inchados e soluços, o travesseiro nunca mais secou, meu corpo continua salgado das lágrimas durante o banho. 
Gritei em microfones, mas estou muda e oca. Minha voz abandonou meu corpo, assim como muitos outros. Tive quedas e recusei todas as mãos que apareceram. Para que levantar? Cada queda quebrava todos os meus ossos, dilacerava minhas veias e minha cabeça se partia em dois. Estava com meu corpo inteiro em "fratura exposta" e ainda assim me viam em códigos. Eu fui o algoritmo não decifrado e esquecido em um livro de fórmulas antigos que ninguém mais tem vontade de estudar. Não há o que estudar em mim, o mistério se foi, os olhos de ressaca sobraram por pura melancolia. 
Preenchi meu corpo com rabiscos porque queria que doesse de uma forma menor do que todos os outros dias. Mas nunca doía. A agulha rasgando minha pele era um arranhão e todos os outros dias um acidente fatal. A água fervendo em dias de verão queimavam e me sufocavam por horas. Minha pele, vermelha e com pequenas queimaduras continuou a se curar após um ou dois dias. Minhas unhas enfiadas nas minhas coxas e barriga cicatrizaram logo em seguida. Meus olhos perdiam o inchaço na manhã seguinte. Mas e eu, por que deus, eu não cicatrizava nada do que doía por dentro? Por que o vazio nunca foi preenchido? Nem mesmo agora.
As pessoas se perderam nos meus labirintos. Hoje busco refazer seus passos, reencontrar pistas nas esquinas de mim, mas eu estou seca e não há mais labirinto nenhum. Estou parada no centro, olhando cada milímetro pela centésima vez no dia, e garanto mais uma vez meu oco. Um grito mudo sai do que restou de mim, com uma esperança tão mínima que não deixa a palavra sair da minha boca. E como em um filme eu vejo todos seguindo seus caminhos, com rotinas e companhias, eu vejo o riso sair de suas bocas mas eu não escuto mais. Meu riso morreu, e com ele tantas outras coisas. 

Estou aqui, como quem tivesse sido nocauteada, mas a agressão veio das minhas mãos. Os arranhões foram meus, os tapas e socos vieram dos meus ossos inchados. 
Estou sem forças, sem coragem para pedir que me colem, porque o dano é irreparável.

Espero a contagem final (talvez a minha própria). 
outubro 02, 2016

Impasses


Queria te contar um segredo sussurrado no seu ouvido nesse minuto que agora acabou de passar. Eu queria seguir com você o seu caminho naquela hora que passou e eu não fui. Queria marcar na pele o teu toque naquele momento que eu não te toquei, e recolhi a minha mão no minuto em que virava para me dizer sobre o clima. Estivesse chovendo granitos, eu não saberia te dizer. Para mim estávamos naquele grau inexistente, trancados em nós. 
Queria ter te contado mais sobre umas coisas todas que eu nunca digo, mas você falou e eu não interrompi. Queria ter grudado em teus calçados e seguido teu caminho porque eu não sabia para onde ir. Queria te perguntar para onde ir, se eu devo ir, igual àquela música que você nunca ouviu. Queria ter cantado para você aquele álbum todo que você iria odiar. Queria te mostrar a coletânea que você jamais ouviria mas já é completamente sua na minha cabeça. Quando senti você se aproximando queria ter me virado e dito alguma coisa que você não responderia. Eu queria um texto menos repetitivo, mas você não saberia me ajudar. Queria ter lido qualquer coisa dessas que eu escrevo pra você, mas você não leva nada disso a sério.  Eu também não. 
Queria te contar do teu cheiro que não ficou grudado na minha mão depois daquela despedida. E recontar todos os fios de cabelos presos na minha blusa que eu não lavei por motivos óbvios e doentios. Chorar as minhas dores todas nos seus ombros de algodão. Abraçar seu peito de plástico. Cheirar o seu cabelo de mentira. Deitar no seu colo de pedra. Queria te suplicar para existir em todas as dimensões possíveis e impossíveis, te ver desenhado em 2D, 3D ou qualquer outra em que fosse possível alcançar sua mão.
Queria te dizer que esse texto é um presente que eu nunca embrulhei, mas você rasgou o pacote todo antes da entrega. Você roubou minhas palavras antes que eu abrisse a boca. Interpretou o texto ainda não escrito. Derrubou as muralhas invisíveis que construí e roubou a torre. Você achou pedaços de mim e refez meu bordado de retalhos à tua mão e vontade. E eu queria muito te dizer que eu gosto da forma como os tons de verde se misturam com o marrom nas colinas de mim. 

setembro 09, 2016

Entre seus dedos


Se eu fosse começar esse texto com uma metáfora eu diria que sou como uma bailarina que dança presa naquelas pequenas caixas de música. Mas não há caixa alguma com músicas irritantes de balé. Sou essa miniatura de mim, tropeçando nos próprios pés, que caminha por entre seus dedos e a melodia é a sua voz ditando meus passos. A bailarina se mantém naquele pequeno círculo que a impede de reinventar sua dança, e nesse ponto agradeço por poder caminhar até o teu pulso com uma liberdade falsa. Porque enquanto sou livre para ir, também sou livre para cair. E o precipício dos seus dedos parecem sempre tão altos. 
Estou seguindo suas palavras, que me dizem para caminhar sempre em frente, e sigo, cega, ignorando meus receios e medos. A altura é cada vez mais alta e a voz às vezes falha. Me vejo pendurada na ponta da sua unha. Eu tenho um medo tão grande da queda, peço baixinho que você não me deixe cair, mesmo sabendo que eu já não posso mais seguir caminhando. A sua pele apresenta marcas que não reconheço, as minhas pegadas são apagadas toda semana e eu já não consigo me encontrar. 
Mas eu não quero cair, não me deixa pular. 
Eu peço, mais uma vez e de novo, para caminhar por entre a sua pele. Reconhecer um pequeno risco meu naquele canto, ou pelo menos querer acreditar nos desenhos que faço nas pontas dos teus dedos. Estou aqui, sentada, esperando que a sua voz me diga mais uma vez o que fazer. Mas o volume está cada vez mais baixo, tenho medo. O silêncio me atordoa. Me diz, de novo e mais vez, qual o caminho seguir. Eu vou, com os tropeços de uma não-bailarina, acompanhar a música das suas palavras e dançar por entre teus dedos, mãos e braço, mais uma vez. 

A metáfora já era minha muito antes de ser sua.
agosto 28, 2016

me colore


Me pinta naquela folha que você esconde e sempre recorre no fim da tua agenda. Me rabisca com pressa naquela última folha do seu caderno. Desenha meu rosto com inúmeras linhas, borra o formato do meu pescoço e redesenha minha boca de acordo com a memória do meu gosto. Troca a caneta e reforça os riscos dos meus olhos, faça e refaça cada um dos meus cílios, e tenta mais uma vez, inutilmente, colocar um brilho no centro. Porque eu estou olhando para você daquela forma que a sua memória fotografou.
Me tatua na tua pele com todos os defeitos de um tatuador relaxado. Me deixa gravada na tua pele como um erro, mas sem remorso. Mas me coloca no teus braços para que me carregue todos os dias. Me leva com você como naquela fotografia que eu não te entreguei. Reforça os traços da minha pele que você ainda não desenhou. Rasga aquela última folha do seu caderno em branco e escreve qualquer coisa inútil que não seja minha. Pinta aquela sua tela em branco em que eu não colori. Revela aquela nossa foto em que eu não estava. Lava sua pele naquele local que tatuei com meu toque. Me deleta mais uma vez como deletou aquela nossa mensagem. Me apaga de cada memória que tem desses nossos caminhos tortos. Me limpa dos seus poros que ainda guardam meu cheiro. 
Eu vou me recusar a sair de cada célula. 
Eu vou continuar marcada no papel. A tela ainda mantém o brilho dos olhos que você tentou apagar. A foto ainda tem a minha sombra que você não quis revelar. 

Pega aquela sua agenda, segue as marcas que eu deixei e me refaz. Monta o quebra-cabeça que virei e me ensina de novo a andar sob seus comandos e traços. Me colore com as suas cores para que eu possa te enxergar em cada esquina em que seu lápis não me alcançar. 

Eu te escrevo com palavras enquanto espero que me faça em cores.