setembro 09, 2016

Entre seus dedos


Se eu fosse começar esse texto com uma metáfora eu diria que sou como uma bailarina que dança presa naquelas pequenas caixas de música. Mas não há caixa alguma com músicas irritantes de balé. Sou essa miniatura de mim, tropeçando nos próprios pés, que caminha por entre seus dedos e a melodia é a sua voz ditando meus passos. A bailarina se mantém naquele pequeno círculo que a impede de reinventar sua dança, e nesse ponto agradeço por poder caminhar até o teu pulso com uma liberdade falsa. Porque enquanto sou livre para ir, também sou livre para cair. E o precipício dos seus dedos parecem sempre tão altos. 
Estou seguindo suas palavras, que me dizem para caminhar sempre em frente, e sigo, cega, ignorando meus receios e medos. A altura é cada vez mais alta e a voz às vezes falha. Me vejo pendurada na ponta da sua unha. Eu tenho um medo tão grande da queda, peço baixinho que você não me deixe cair, mesmo sabendo que eu já não posso mais seguir caminhando. A sua pele apresenta marcas que não reconheço, as minhas pegadas são apagadas toda semana e eu já não consigo me encontrar. 
Mas eu não quero cair, não me deixa pular. 
Eu peço, mais uma vez e de novo, para caminhar por entre a sua pele. Reconhecer um pequeno risco meu naquele canto, ou pelo menos querer acreditar nos desenhos que faço nas pontas dos teus dedos. Estou aqui, sentada, esperando que a sua voz me diga mais uma vez o que fazer. Mas o volume está cada vez mais baixo, tenho medo. O silêncio me atordoa. Me diz, de novo e mais vez, qual o caminho seguir. Eu vou, com os tropeços de uma não-bailarina, acompanhar a música das suas palavras e dançar por entre teus dedos, mãos e braço, mais uma vez. 

A metáfora já era minha muito antes de ser sua.
agosto 28, 2016

me colore


Me pinta naquela folha que você esconde e sempre recorre no fim da tua agenda. Me rabisca com pressa naquela última folha do seu caderno. Desenha meu rosto com inúmeras linhas, borra o formato do meu pescoço e redesenha minha boca de acordo com a memória do meu gosto. Troca a caneta e reforça os riscos dos meus olhos, faça e refaça cada um dos meus cílios, e tenta mais uma vez, inutilmente, colocar um brilho no centro. Porque eu estou olhando para você daquela forma que a sua memória fotografou.
Me tatua na tua pele com todos os defeitos de um tatuador relaxado. Me deixa gravada na tua pele como um erro, mas sem remorso. Mas me coloca no teus braços para que me carregue todos os dias. Me leva com você como naquela fotografia que eu não te entreguei. Reforça os traços da minha pele que você ainda não desenhou. Rasga aquela última folha do seu caderno em branco e escreve qualquer coisa inútil que não seja minha. Pinta aquela sua tela em branco em que eu não colori. Revela aquela nossa foto em que eu não estava. Lava sua pele naquele local que tatuei com meu toque. Me deleta mais uma vez como deletou aquela nossa mensagem. Me apaga de cada memória que tem desses nossos caminhos tortos. Me limpa dos seus poros que ainda guardam meu cheiro. 
Eu vou me recusar a sair de cada célula. 
Eu vou continuar marcada no papel. A tela ainda mantém o brilho dos olhos que você tentou apagar. A foto ainda tem a minha sombra que você não quis revelar. 

Pega aquela sua agenda, segue as marcas que eu deixei e me refaz. Monta o quebra-cabeça que virei e me ensina de novo a andar sob seus comandos e traços. Me colore com as suas cores para que eu possa te enxergar em cada esquina em que seu lápis não me alcançar. 

Eu te escrevo com palavras enquanto espero que me faça em cores.  
agosto 08, 2016

Seis e quatro



A luz ainda distante. O silêncio alto das ruas. Passos fugitivos dos estabelecimentos. O relógio bate seis horas. A luz mais próxima. O silêncio gritante da buzina. As pessoas param. O relógio bate seis horas.  A luz mais próxima. A buzina gritando no silêncio. O relógio bate seis horas. A luz em mim. O relógio bate seis horas. Os passos congelam. A luz congela numa distância próxima. Há um espelho na esquina da frente, esperando para que eu o encontre. É o destino, estou no meio do caminho, é preciso.
Enxergo o meu reflexo borrado. São as lágrimas. E eu disse que não iria. Não hoje. A menina do espelho grita, mas eu não a escuto. Bate com os pulsos no vidro, mas não posso alcançá-la. Não há como libertá-la. Os passos ao redor congelam, estamos sós. Quero quebrar cada pedaço daquele vidro, deixar com que ela saia livremente e pare de chorar. Pelo menos por hoje. Mas minhas pernas se recusam, e me vejo no meio do caminho, observando seu desespero.
Meu coração espreme. Sinto a dor ardente de algo me comprimindo. O ar se vai aos poucos. Vejo uma menina de fora. Estou presa dentro da caixa de vidro. A menina me observa e repete meus atos, lutando para sair. Mas ela está livre. Grito, mas não me escuto. Quero avisá-la que ela pode seguir, mas deve tomar cuidado com os carros, estão tão próximos e ela parece não ver. Ela parece não querer ver. Menina, não faça isso. Desesperada bato com as mãos no vidro para alertá-la. Eu preciso salvá-la de si mesma.
A menina do reflexo desespera-se e eu sinto que preciso chegar até lá. Há uma luz a esquerda muito próxima, algo me diz ser perigoso, mas não me importo. Aquela dor, aqueles gritos surdos, você não os ouve? Você não a vê? Olha, na sua frente, moço, tem uma menina ali você não está vendo? Eu preciso ir até lá. Eu preciso me salvar. 
O relógio bate seis e um. A luz está em mim. A buzina grita alta e me atordoa. Sinto a colisão. Vejo o céu alaranjado, é fim de tarde. O pôr do sol é sempre tão lindo. Quero deitar no asfalto quente de fim de tarde e esperar a noite. Talvez seja lua cheia. Eu sempre gostei da lua cheia. Seria bonito. Mas. Alcanço a outra margem. A colisão foi um tropeço. A luz chegou próximo, mas passou. A buzina foi o alerta que eu ouvi e desviei. 
E por que não os gritos? Por que eu não ouço seus gritos? Não há mais caixa de vidro, não há espelho, não há menina. Sigo o caminho. O relógio bate seis e dois. 
Eu queria contar um segredo para a menina da caixa de vidro. O relógio bate seis e três. Sabe, às vezes eu queria que não batesse mais. 
julho 29, 2016

Não-ditos


Olho pela janela e as árvores correm com o vento. As cores misturam-se como naquela velha paleta de tinta à óleo escondida no armário. O verde grama se mistura com o azul celeste. Não há nuvens. O sol brilha distante, sem forças, o frio ainda sobressai. Mãos gélidas. Rosto ardente. Tremo involuntariamente. Já não é possível culpar apenas o frio, a situação acaba desenvolvendo tais consequências e eu apenas confirmo que sim, é necessário ligar o aquecedor.  É sempre mais fácil evitar qualquer explicação que exija que eu te mostre que.
E o silêncio grita dentre os quilômetros. Sai pelas frestas e perde-se no vazio dos campos. Tento alcançar uma sentença, uma mera palavra que possa ter ficado presa entre os espaços, mas é impossível. O vento forte as carrega e perdemos a chance. Estamos sendo engolidos por não-ditos. A ausência de palavras engasga, corrói na garganta, invadindo a alma. E aqui a gente insere uma digressão incompleta, pois o resto dessa sentença saiu naquela meia hora em que não dissemos nada. 
Me restaram poucas palavras para continuar esse texto. Já não sei como prosseguir. Entre nós o muro se formou, e por mais que eu queira, não consigo decifrar os algoritmos que te envolvem. Você tenta traduzir as minhas palavras, mas escondo-as novamente. É perigoso demais. 
- Eu quero ler você. 
Escondo as páginas. Rabisco as sentenças. Tento apagar, mas o vento parou e as palavras ficam. Você lê "medo" na primeira linha dos meus olhos. Nas minhas mãos está escrito "sim". Escondo as pernas e ombros. Os pés recusam-se a mover-se e exibem o "fico" como uma sentença. 
Eu fico.
Você bebe cada uma das minhas palavras, e eu transbordo em você como oceano. Da sua boca escorrem palavras, e inutilmente tento me agarrar a qualquer uma delas, mas a correnteza é mais forte. Percorro suas sentenças como sujeito principal de cada oração, mas não as roubo. Elas ainda são tão suas quando no início, e eu cada vez menos minha, me vejo descrita entre teu mar que agora vaza pela porta já aberta. 
Então, mais uma vez, somos levados pelo vento. Nos perdemos novamente. Você deixou que todas as suas palavras se fossem, mas as minhas permaneceram.  Os lábios guardam sentenças infinitas que um dia eu fiquei de te contar. 
Mas o vento nos leva sempre embora antes da hora, e eu queria tanto te dizer que.

julho 11, 2016

Eu transbordo


Tenho algumas horas antes do despertador gritar numa tentativa inútil de me acordar, sendo que nem mesmo cheguei a adormecer. A noite não acalma, a lua não me ouve, os ponteiros dos relógios correm as horas e eu paro. Novamente aqui. Com esse famoso bloco de notas sempre aberto no canto direito dessa tela, esperando que eu consiga deixar mais alguma coisa ir. E eu escrevo e apago, com medo de perder uma mísera letra. Eu não quero perder nada. 
Deixa eu ser egoísta dessa vez e engolir o mundo, mesmo sabendo que assim eu não consigo mais. Deixa eu me iludir mais uma vez que tudo isso vai passar, que é temporário e que o tempo vai curar todas as minhas dores e medos. Que a minha ingenuidade fale mais alto e pinte flores no meu destino, como uma forma de acalentar as minhas decisões e facilitar meus árduos caminhos. Porque o inverno arrancou todas as flores e folhas das minhas árvores, deixou a estrada seca e vazia. E o vazio me apavora.
Me completa com seus vazios, me deixa mentir para mim novamente que tudo isso é suficiente e que eu não preciso de nada mais. Me ilude mais uma vez dizendo que de fato eu estou completa aqui. Conta mais uma vez aquelas suas histórias de futuros, me coloca na tua peça como uma personagem e cria pra mim um final feliz. Deixa eu acreditar, pelo menos por hoje, nessa noite fria de inverno, que você consegue me moldar e que eu não preciso tentar escapar.
Mas o molde não cabe. Eu não caibo na forma já moldada. E por mais que eu tente, minhas pernas vazam. Meus braços ficam apertados e precisam mudar. A cabeça acaba de fora. Os pés sobressaem. Mas eu queria tanto. Me encolho, entorto meus braços, encurvo a cabeça. Mas não cabe. Eu não consigo mais, os braços já estão dormentes, as pernas congeladas, e a cabeça precisando descansar em um espaço dela. Por mais que eu queira tanto caber no teu molde, eu não posso fugir da minha estrutura. Porque, querido, eu não caibo em você, mas eu também deixei de caber em mim. Eu transbordo todos os dias. 

Desculpa. 

De fato agora o primeiro texto de 2016.