outubro 24, 2014

Redesenhando-me


Perdida em meio a tantos pincéis, tintas e aquarelas busco retocar alguns traços meus que acabaram perdendo a cor durante o último ano. Devo confessar que sim, há cantos mais delineados e também algumas pintas e marcas recentes espalhadas por essa pele branca. Não que sejam feias e eu pretenda apagá-las, na verdade estou apenas tentando redesenhar aquela linha mais firme que me guiava nos anos que se passaram. Eu perdi o tal "fio da meada" que eles tanto dizem, perdi a rigidez daqueles traços que marcavam até os papéis de apoio.
Estou assim, redesenhada à grafite fino e de um cinza claro, como fumaça. Há traços quase que apagados, emaranhados com uns tantos outros, perdendo-se de mim. Literalmente deixo-me levar por terceiros, quartos e quintos e perco a origem. O traço firme que sai do meu corpo vagueia pelos quatro cantos de uma folha até que se extingue na próxima, onde não sou mais eu. Não que eu não queira mais folhas e pessoas e traços em mim, não que eu pretenda apagar todos os terceiros e quintos e quartos, independentemente da ordem que me apareçam, das minhas linhas. É apenas uma questão de ser, eu preciso voltar a ser um tanto quanto minha. Desenhar a minha linha sem precisar conectar a folha seguinte.
Tenho medo de que os traços afinem ainda mais, que a cor clareie ainda mais, e eu que precise ainda mais de alguém para me manter firme em meus traços, metas e vida. Não que eu não queira alguém para alcançar as metas junto, viver a vida junto ou até mesmo desenhar-se comigo, mas e eu? Em que rascunho deixei meus sonhos solitários e anônimos? Em quais borrões se esconderam os meus pensamentos mais individualmente meus? Qual borracha apagou minha fome de ser inteiramente minha? 
Acho muito bonito a curvinha que se fez ali na minha bochecha, como se eu estivesse sorrindo que nem boba 24 horas por dia, ou até mesmo a curva mais acentuada da minha mão encontrando-se com outros traços mais escuros. Mas eu também sinto falta daquele olhar mais marcado, da linha forte embaixo dos olhos e daquele brilho opaco dos olhos. Isso, nesse paradoxo mesmo. Um brilho que não brilha, um sorriso que não sorri, um coração que só bate. O paradoxo existe em mim, que enquanto reforço certos traços, a outra mão vem e apaga tornando-o ainda mais dependente dos que vieram e ficaram. E ficarão. E eu, ficarei?

Tá foda.

3 comentários:

Ariana Coimbra disse...

Lara, a sua escrita esta cada vez mais bonita e madura.

Parabéns!

Eduardo Rochtaschel Foss disse...

Parabéns... Muito bom!

Eduardo Rochtaschel Foss disse...

Parabéns... Muito bom!