outubro 08, 2014

Meia luz



Não sei como começar, nem muito menos como o destino nos encaminhará para o final. Entretanto, entre as páginas de vários livros, me vejo buscando essa página em branco que me chama para preenche-la. E preenchendo as linhas, completando as frases, esvazio as lacunas de mim que tornaram cada vez mais densas. Não digo há semanas, porque há lacunas que pesam desde o nascimento. A hipérbole sempre aparece, desculpe. Não consigo me conter, o tal do eufemismo não mora em mim, ele apenas aparece num tema ou outro. 
E nesse tema, meu bem, não há eufemismo que esconda. Retomando metáforas, em que digo estar nua enquanto escrevo, quero hoje trazer para o literal. Falar da nudez física, do que é descrever-se percorrendo braços, pernas e barriga. Como é encarar um rosto marcado, curvas não delineadas e um medo tremendo do reflexo do espelho. Porque assim, sem uma roupa mais larga, um shorts que acinture, uma calça que disfarce, é tão difícil fixar os olhos. Olhar os detalhes mínimos de um braço que não é tão firme, uma coxa que não é fina, uma barriga que não é lisa. E aqueles que julgam os estereotipados que me desculpem e por favor me ensinem a enxergar-me com as luzes acesas. 
Entre riscos e rabiscos, na perna, no braço, nas costas e no pulso a gente vai tentando se desenhar conforme o imaginado. Eu gosto assim, de ter memórias que escorrem pelos meus pulsos e um laço que enlaça toda as minhas dúvidas e incertezas. E a música que pede pra gente parar de fazer nosso coração chorar repete esse refrão tantas vezes, porque o coração chora constantemente e constantemente é por espelhos e seus reflexos. O hamsá tenta proteger-nos de todo o mal, mas fica ainda mais difícil quando ele vem de dentro. Como proteger de si mesmo? Como desculpar a mim? Como parar de chorar o meu próprio coração se eu o machuquei? Ainda procuro a mágica que me salve desses dilemas. 
A cada fase difícil tento marcar-me para que tudo se torne um pouco mais leve. Desenhando assim palavras ou símbolos, adicionando um brinco seja na orelha ou no nariz. E te confesso aqui que são todos escapes para quem ainda conserva a esperança de se olhar no espelho e gostar de cada detalhe. E não somente daquele perfil que tem o piercing, do ombro que tem a música, ou dos recortes apenas "da cintura pra cima". O corpo é um encontro de braços, pernas, barriga, cabeça e a gente tenta recortar-se cada vez mais, tornar singular o que é conjunto. Quem estou enganando cortando mais uma vez essa fotografia? Escondendo mais uma vez essa foto de biquíni que me dá pavor? 
Não é pra ser texto de auto-ajuda, então não vou dizer aqui que você deve se amar independente dos cinco quilos a mais ou a menos, nem que isso passa e no fim tudo fica mais fácil. Fazem mais de cinco anos que meu corpo passa por mudanças, desde quilos a tatuagens, piercings e cortes de cabelo, e ainda assim a imagem é refletida em meia luz. O farol alto ainda é difícil demais. A nitidez intimida, e a gente prefere assim, no escuro, algo meio borrado. Quem sabe um dia, quem sabe... 

Sempre quis escrever sobre isso, mas vivia adiando.
Ainda não está completo. Foi uma preliminar. 
Deixa pra próxima. Ainda é muito difícil se auto-revelar. 

0 mini memórias:

Postar um comentário