agosto 10, 2014

O "in"


Vai ser só mais um desabafo sem questões gramaticais ou literárias. Não tem um pingo de saudade nessa tinta, a essência está puramente voltada para outros sabores. Mais amargos talvez. Mais meus, quem sabe. Mais íntimos, há quem diga. Porque não há nada mais íntimo que o dentro, o profundo, o in. E o que há em mim, enfim? Li uma frase em um texto crítico esses dias em que ele questionava: "há mais de um ser em mim?". Fiquei pensando, quando me olho no espelho - que por acaso era o tema da questão - não quero me ver com alguma farda diferente da que estou vestindo no momento, não quero ser o reflexo de pessoas que encontrei, nem das frases que falei só por agradar. Quero que o meu reflexo mostre exatamente o que estou vestindo, seja um pijama velho, a blusa faltando um botão e o rímel borrado próximo a sobrancelha. Quero que as palavras que me envolvam sejam as minhas próprias, e que os meus sorrisos reflitam a sinceridade da minha alegria e não bajulações alheias. Quero ser minha em mim. 
Neguei a presença literária mas volto atrás. Dizem que o espelho servia de metáfora para "olhar para dentro de si". Portanto, quero ver exatamente cada detalhe do meu eu. Quero sentir as cicatrizes de cada queda durante o caminho, ainda mais aquelas ocorridas por escolha própria. E que cada cicatriz me ajude a montar o quebra-cabeça que me desvende, mas que no fim seja apenas mais um daqueles de mil peças infinitas. Porque quero continuar assim, sendo este mistério até aos meus próprios olhos. Não quero que as minhas marcas linguísticas estejam destacadas a cada parágrafo e que a coerência esteja de acordo com as regras do bom texto. A linguística que me desculpe, mas peço licença porque no momento estou tentando fugir de todas estas questões alheias a mim. Se o texto estiver incoerente para muitos, que eu ache a coerência refletida na minha pele. Que eu seja a minha própria crítica, e não precise de terceiros para achar inferências ou intertextos nos meus discursos. Porque serão meus, com falhas e lacunas a serem preenchidas, mas preenchidas por mim.
O reflexo do espelho não é bonito, há certas marcas bem delineadas e frases sendo rabiscadas meio tortas. Mas aí entra a questão da física: depende do ponto de referência. A minha referência sou eu, então por enquanto está tudo bem. Porque haverá um dia em que os escravos fugirão da fazenda, as tias irão visitar os parentes doentes, o mundo ficará vazio e sobrará apenas o espelho. E como escreveu Machado naquele conto, você vai olhar para o espelho e ver seu reflexo nítido ou fosco dependendo da sua alma. O foco agora não é esse, mas sim o reflexo. As minhas feições estão claras, não há borros entre minhas ideias e falas. Por isso enxergo cuidadosamente cada queda, seus arranhões e cicatrizes. Mas estou nítida. Estou inteiramente, puramente, perfeitamente, refletida em mim. Desde já peço desculpas a este reflexo, que ainda sofrerá muito. Talvez no fim estejamos com um número muito maior de lesões, mas ao mesmo tempo seremos ainda mais único. Seremos eu. Seremos o in, o dentro, o profundo. 

Mas é impossível simplesmente desligar o "out".

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