agosto 29, 2014

Não sei ser par


Não sei como as pessoas conseguem deixar as gavetas duplas alinhadas. As minhas sempre perdem um parafuso ou outro e acabam meio caídas para um lado. Uma gaveta sempre pesa sobre a outra, e assim uma só carrega todo o fardo de meias, moletons ou cartas velhas. Meus sapatos não conseguem ser par. Há um pé perdido no armário enquanto outro caminha pelo corredor, quarto ou se esconde atrás da cama. O direito vai para a esquerda e o esquerdo cisma em correr pela direita. E assim ocorre com as meias, que se enrolam entre os lençóis, se escondem nos baús ou se perdem dentro de uma gaveta. Há um pé perdido aqui, enquanto o outro escorrega pelo corredor encerado. Meus brincos estão sempre soltos em uma caixinha qualquer, nunca em pares. A busca é longa, vez ou outra se enroscam em pares errados. A pérola acabou encaixando com aquele de festa. E todo mundo sabe que não dá para simplesmente inventar certos pares, eles são assim, já feitos.
Minhas mãos deveriam seguir o mesmo compasso, trabalhando juntas, mas cismam em dividir este teclado e trabalhar cada qual em seu canto. Não há trabalho em conjunto. A divisão de tarefas não acontece comigo. Não sei dividir-me em duas, trabalhar em dupla, preencher uma parte. Minhas coisas estão sempre em uma sintonia que não combina, meus ouvidos sabem diferenciar os sons em cada lado. A música não é ouvida em um todo, mas cada qual seu instrumento e voz é dividido. E o todo? A tal superestrutura disso tudo? Não queria me dividir didáticamente para estudos, pois no momento queria mesmo ser prática. Trabalhar com o todo sem a análise das partes.
E o direito procura o esquerdo, nas tentativas meio falhas busco os pares. O meu par. E o que é, afinal, ser par? Desde a gavetas a pessoas, não sei como funciona essa questão de completar-se. As minhas mãos completam-se com outras, minhas pernas encaixam-se e os lábios selam palavras que se conectam. Mas isso é físico. O texto todo foi só uma distração pra dizer do complexo, do que vem de dentro. O sentimento duplo, as batidas do coração que se intercalam, a saudade que é preenchida na presença, a calmaria no toque, o amor nos olhares. A felicidade já se torna meio sem sentido se não compartilhada. A tristeza é ainda maior sem a presença, com alguma palavra boba que seja ou até mesmo um silêncio a dois. Vê, até o silêncio resolveu ser par e ficar mais bonito assim! Porque ser par é bonito. Ter um par é lindo. O difícil são as segundas feiras, que fazem com que cada perna ande sozinha, cada mão se solte e que os lábios aprendam a dizer outras palavras. Ser par só é mais difícil do que deixar de ser. 
Não sei ser par. Sim doutor, apresento todos os sintomas citados acima, mas o problema é que meu inconsciente fica me dizendo repetidas vezes que isso tá errado, é preciso separar as letras, dividir estas sentenças e distanciar mais os parágrafos. E eu não aprendi a lidar com distâncias. Sejam físicas ou psicológicas. E para deixar de ser par a gente tem que dar espaço, deixar que corram os cinco dias, que as pernas andem com apenas um par e as mãos se aqueçam entre elas. Os lábios que se bastem entre eles, não há mais uma dupla fina para completar-se. É possível que tudo isso ocorra volta e meia sem que cause algum transtorno? Veja aí doutor se já não estou com algumas sequelas. Eu não sei ser par, porque ainda é sexta e há 48 horas que nos distanciam. 

Que saudade daqui. 

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