julho 21, 2014

Reorganizando


"You could still be what you want to, what you said you were when I met you."*

Separar as letras. Organizar as palavras. Enumerar as frases. Reorganizar os sujeitos. Reelaborar os predicados. Conjugar os verbos. Inverter certas vírgulas e fechar sentenças. Mas não acabar finalizando nada, apenas reescrevendo o mesmo texto batido, as mesmas frases desconexas, juntando as mesmas letras. Mantendo o predicado meio incompleto para combinar com a realizadora da ação que pretende escrever desse mesmo assunto. Estamos ambos aqui, faltando uma parte. Tentando nos completar com palavras a falta que dá, assim, numa quinta, sábado ou segunda. É uma noite qualquer, e olha, dá saudade. 
S-a-u-d-a-d-e. As letras tão repetitivas, a palavra tão evitada e tão presente. O dicionário não traz a definição que procuro nesses anos de busca, ainda falta. Irônico isso. A saudade falta até em seu próprio conceito. Falta nessa frase, faltou naquela frase, falta ainda muito nesse texto. Falta em mim. Falta tanto. Faltou ali um interlocutor para completar o nosso estudo da segunda concepção de linguagem. Ignorando mesmo todo nosso contexto de produção, a situação do falante - que, convenhamos, realmente é melhor ignorar -, só completa ali, como naqueles exercícios ridículos de livros didáticos, o sujeito. É oculto? É composto? A ficha de correção deixou essa faltando. 
Então agora que venha o contexto em si, o tal conhecimento de mundo, o que nos envolve. A noite é uma qualquer, está meio frio e a música continua a tocar em repetição. O texto está aberto no canto da tela, como que se quisesse se esconder de mim mesma. Não era para estar escrevendo, não de novo, não sobre isso, não aqui. Tô escondendo aqui um conhecimento que eu pareço liderar e na verdade não saí do abc. Me ensina a juntar essas peças, 1+1 não resulta em dois. As letras C com A não forma sílaba nenhuma. Os enunciados não estão transmitindo o sentido que todo texto pede. Eu ainda não aprendi a andar fora desse círculo magnético que me puxa sempre de volta. Mas nunca há voltas.
Desculpe a desorganização, na vontade de organizar acabei atrapalhando a semântica, embaralhando as frases, destruindo a estrutura. Vamos criar uma metáfora aqui, porque a minha estrutura foi abalada e embaralhei os sentimentos. Há letras espalhadas em cada parte de mim querendo dizer alguma coisa que eu, sim, eu sei exatamente o que é. Mas deixa assim, subentendido nessas centenas de palavas jogadas aqui, porque não dá. Hoje não dá para escrever assim, sem trancas. Tem entrelinhas escondidas, talvez elas se encontrem e encontrem você. E me tragam um cpf do Brasil com residência próxima. Ou nem tanto. 

O texto é antigo, as ideias um tanto ultrapassadas, portanto não tente reorganizar nada. A graça está justamente aí.

Um comentário:

Dilly Monnete disse...

Quem nunca tentou embaralhar os sentimentos nas entrelinhas que atire a primeira pedra. Afinal, não é disso que vive a literatura?
(:

dillymonnete.blogspot.com