fevereiro 24, 2014

De novo, mais uma vez


"Nada foi dito, nada escrito, não me causou nenhum mal. Vem pra mim..."*

Começo esse texto com um soluço seco preso na garganta, uma lágrima que ainda não quis escorrer por medo de borrar a maquiagem nenhuma que uso nessa sexta. Não há base que esconda minhas olheiras de noites mal dormidas, não há sombra que corrija a falta de brilho do meu olhar, não há batom que ilumine meus lábios sem vida. Em menos de um parágrafo me loto dessas hipérboles, mas é que a saudade me lota demais. E transborda. E transbordo. Aqui. Tô aqui de novo, mais uma vez, again, pra te contar a mesma história invertendo os roteiros. Não deixei as lágrimas para o final, porque não há lágrimas. Não te deixei implícito porque há teu nome percorrendo todo meu corpo durante esses dias. Seu nome grita pela minha boca antes que eu possa fazer alguma coisa. Minhas mãos vagueiam por essas avenidas procurando teu encaixe. Meu corpo percorre essa cidade em busca de alguém que não chega com o próximo ônibus. "Não seu motorista, pode ir, vou esperar o próximo..." E o próximo talvez tenha o teu olhar meio travesso, um papo meio moleque que me engana assim por uma semana ou outra, até que a carapuça caia mais uma vez e eu desabe em meio aquele banho de horas, querendo te limpar de mim, mesmo sabendo que nem era você. E talvez seja exatamente por isso que esfrego até que meus poros ardam. Não era você. Não era você. Não era você. Paranoia. 
Nos porta-retratos tento achar teu reflexo escondido naquele vidro, mas não tem a cor escura da tua camisa refletida em nenhuma janela. Não tem o som dos seus sapatos abafados no tapete da sala. A janela do meu quarto continua muda, a sua voz não apareceu ali para dizer mais um boa noite as quatro da manhã. A lua nunca me pareceu tão distante. A lua nunca me pareceu tão sua, e sendo tão sua, tão não minha. Não consigo mais contar para ela minhas saudades, ela parece ocupada aí do seu lado. Me devolve. E isso inclui tanto a lua quanto a mim. Traz de volta esse pedaço que falta toda vez que a noite cai. Já não sei o que fazer para evitar as memórias, destroem cada pedaço do meu dia-perfeito-sem-você, quebram a muralha que crio com tanto sacrifício todos os dias para que eu não desmorone a cada vento um pouco mais forte, a cada música boba, a cada cena daqueles filmes de sessão da tarde. Os ventos foram fortes, as músicas gritam tanto, a muralha desabou e cá estou. Mais uma vez, de novo, again. Tô sendo repetitiva de propósito meu bem, não me julgue, já não sei variar nessas lamúrias. Não há como trocar o sujeito dessas minhas orações e o predicado vem sempre com saudade. O verbo de ligação não nos liga mais. 
A minha angústia se mistura com o vazio de uma sexta qualquer. Não há razão para te falar de datas, por mais que números seja sua área, o único que eu conseguiria pensar agora seria o seu. Telefônico. Desculpe, estou repetindo coisas evidentes. A visão está um pouco turva pela falta de lágrimas, o ar meio rarefeito devido aos soluços vazios frequentes. Eu estou oca meu amor. Pode bater que não há mais nada aqui. As hipérboles continuam aparecendo aqui e ali, não há poema que encaixe essas palavras. Não há nada mais que consiga o encaixe. Que encaixe? O que é ser inteira? Convivo com meus pedaços e vou seguindo, construindo e reconstruindo a muralha do dia a dia, o sorriso da noite, a rotina das semanas. Mas hoje, ah, hoje que se exploda toda essa farsa. Que cada tijolo bem colocado dessa muralha espalhe por esse quarto, que eu tenha assim um momento só teu, um momento só meu, um tempo sendo (m)eu. Porque agora, aqui, te dizendo todas essas coisas que não digo, te colocando nesses enunciados ainda não explicados e tão repetitivos, eu só queria te repetir. Ter você de novo, again, mais uma vez.  

Desculpa, é tudo culpa dessa segunda feira chuvosa.
Ou isso é apenas outra desculpa qualquer.
Tô fugindo de mim, a culpa é minha.
As palavras também. 

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