outubro 03, 2013

Três segundos


No, I don't want to see you go. No, I don't want to be alone. *

Quero falar aqui do encontro de bocas, da forma dos lábios, do gosto. Falar que na ausência dos lábios a gente se sente mais calado, como que guardado dentro da gente mesmo. E tem como isso? Não sei se tem, mas já vi muita gente presa em si só por ter ficado apenas com um par lábios finos grudados na boca. Não me corrija, esse texto é pra ser assim, desse jeito, com essas metáforas que não existem, com vírgulas em excesso e pontos cortando orações. Existem tantos pontos que interrompem lábios. Me dá uma pena tão grande, uma vontade de colocar assim várias vírgulas que dão aquela pausa pequena, mas logo volta. É como aquela respiração profunda entre um encontro e outro, onde o ar parece percorrer o corpo inteiro num intervalo imenso de três segundos. Porque entre três segundos a respirar e outro de selar, selaríamos enfim até o fim. A rima foi pobre, mas valeu. Todo encontro de lábios vale alguma coisa, nem que seja a mera lembrança e o ensinamento que esse nunca mais. Mas vale, sempre vale. 
Lábios, vá entender. Tão falantes e briguentos. Vivem mordendo-se, tendo momentos de fúria onde se empurram de tal maneira como se quisessem trancar a passagem de alguma coisa. E que será que passaria? Uma palavra talvez. Palavras são o tesouro dos lábios, que escondem-nas nos momentos mais propícios. Mas tem vezes que querem tanto que elas saiam que deixam um buraco grande, e o eco faz barulho. Porque as palavras são carregadas de sentimentos, e nem sempre sabem como se comportar. Saem quando querem, se escondem quando bem entendem. Vá entender. Ninguém entende. Quem é que vai se interessar por palavras se tens lábios tão bonitos? Quem é que vai querer ouvir teus medos e receios se o desenho do teu lábio inferior se encaixa no meu? Quem vai querer ouvir o som da tua risada se o teu gosto tem o gosto que a gente gosta? Quem? Pensei em me colocar aqui, mas essa foi mais uma daquelas vezes que os lábios abriram caminho e deixaram o eco gritar em silêncio. Quem disse não foi eu, foram eles. Meus lábios desenharam a palavra que não saiu, mas ficou. Eu. 
Quando me perguntavam qual era a parte do meu corpo favorita dizia sempre boca, sem saber que era lábio. Dizia que era lábio sem saber que era o encontro deles. Dizia que era o encontro deles, sem saber que na verdade são os três segundos antes. Aqueles que você usa pra respirar mais fundo e o ar te sobe na cabeça rápido, um arrepio percorre o corpo, e o mundo se torna pequeno entre aqueles olhos, cílios, nariz, bochechas e lábios em zoom. A respiração oscila no milésimo de segundo que antecede qualquer coisa, as mãos procuram um apoio qualquer e o estômago cantarola alguma coisa naquele jardim de borboletas que se tornara. São três segundos. Apenas três. E todas aquelas horas de conversas, risadas e segredos compartilhados são assim apagados e de nada valem por causa desses malditos segundos. E como que a gente pode ficar assim, a sentir falta de segundos? Segundos vão e passam a todo momento, mas aqueles, ah, esses três ficam. Entenda o trocadilho quem quiser. 
Com três segundos fiz esse texto, que demorou muitos três segundos para terminar. Porque faz parte dessas coisas que a gente não sabe como começar, fica meio perdido no meio, mas a hora de terminar é tão ruim. Por que soltar os lábios? Deixa eles assim, presos por mais alguns intermináveis três segundos. Me deixa redesenhar o risco da tua boca e constatar que o teu gosto ainda continua o mesmo daquela vez. Lábios assim, unidos em uma harmonia única, tem gente que chama de beijo. Mas beijo não transmite a sensação que tô querendo descrever. Até porque coisas assim não se descreve, sente. Mas também não coloque muito sentimento nessas coisas, lábios são lábios, não palavras. Sentimento a gente traz aqui, naquela conversa ou na outra, num texto assim ou naquele outro, num encontro não. No encontro são lábios que se falam numa língua particular e transmitem suas peculiaridades. O sentimento chega depois, naquele olhar que dura uns dois segundos ou três, quando os lábios ainda próximos sentem o calor um do outro, mas agora são os olhos que falam. Mas esse, o dois segundos dos olhares, a gente deixa pra próxima.

Três segundos dizem muito mais que meros quatro parágrafos.