setembro 01, 2013

Rua Dos Bobos, nº zero


I was falling deep, deeply in love with you, and I never told you til just now.*

O destino esses dias me levou para o nosso antigo caminho, aquele mesmo que nos levava para casa. A casa, que não é a mesma daquela música de criança, mas também não tem mais teto e nem mais graça. O caminho também não. Na verdade me vi surpresa ao realmente ver como o terreno está sujo, o muro quebrado não aguenta mais que a gente se encoste ali e se abrace por algumas horas, as paredes, as poucas que ainda tinham, já não existem mais. Nem mesmo nossos fazedores de desejo, que eu chamava de "soprinhos" só porque você ria e ia lá no meio daquele terreno sujo buscar um pra mim ainda existem. Talvez nunca tenham existido de fato, era mais aquela coisa de querer por querer fazer um pedido. E eu pedia tanto. Sucesso profissional, uma viagem, um carro bacana no futuro, um livro publicado, um emprego... E você sempre com o mesmo: eu. Você sabia que a minha presença nunca demonstrou posse. Estávamos juntos, mas eu sempre continuei minha. Os soprinhos não te ouviram. Mas a casa, tão velha, tão triste, tão vazia, me ouviu naquela tarde nostálgica que me trouxe você.
No primeiro dia paramos ali e você falou e falou sobre como tornaríamos aquele terreno bonito. A varanda fresquinha e aberta, as janelas sem grades para que não nos aprisionasse. Sem saber que eu já estava me sentindo aprisionada antes mesmo de haver paredes, portas, ou mesmo janelas. O quintal bonito e florido, com inúmeros soprinhos espalhados pelos cantos. Para cada dia que amanhecesse seja um motivo de um desejo para que outro chegue, e o outro, e outro... E tiveram. Tiveram dias seguintes em que discutimos a cor do muro e a sua altura, por mais exato que você seja sempre quis algo mais prático, e por que não deixarmos sem muro? Casas assim me lembram as dos Estados Unidos, e você já não aguentava mais ouvir as minhas lamúrias de viver no Brasil. Mas ouvíamos sempre aquela música que nos perguntava onde era a nossa casa. A nossa casa que era a gente. E assim a tarde caía, o sol se despedia e a gente adiava mais alguns minutos ali naquele muro velho que na cabeça de cada um guardava uma fortaleza. Um nós. 
A casa era bonita, tinha gatinhos brincando no quintal tentando alcançar o desejo soprado. Te via cuidar de todo o jardim desde manhãzinha até o anoitecer, via o modo como seus olhos me acompanhavam em cada passo quando sabia que era melhor não se aproximar, mas seus olhos sempre se aproximavam. E me olhavam dentro da alma sem saber ao certo me enxergar. Você ria quando eu dizia nervosa que não gostava quando esquecia os olhos dentro dos meus, porque no fundo eu sempre tive medo que me desvendasse. Eu não valho a pena, dizia sempre, e você retrucava que na verdade quem não valia era você e portanto deveríamos esquecer essas bobeiras e ficar juntos. Mãos, braços, pernas, lábios, corpos juntos. A música tocava sem parar, a gente já sabia até aquela parte do diálogo rápido em inglês deles, aquela frase mesma rabiscada atrás da fotografia da sala. A única. Agora é até engraçado lembrar desses detalhes, a irritação aos domingos, a saudade nas terças, porque lembra, ela só vinha nos primeiros dias. O gráfico dos diálogos que foi caindo, e caindo, até emudecer. A música já não tocava. Não havia soprinho. O jardim apodrecia. 
O terreno está a venda, colocaram um número de telefone lá, por que você não liga? Eu sei que está procurando um lugar para cuidar de um jardim, e eu acho que ali ficaria bonito. Você sabe administrar bem uma casa, por mais que eu dissesse que eras um preguiçoso, no fundo sabia das suas qualidades. Nunca disse, mas também não disse muitas outras coisas que ficaram perdidas nos soprinhos. Cuida deles, por mais que seus desejos tenham outro foco, eles alegram qualquer ambiente. Sua risada estranha também, mesmo que eu não tenha rido. O riso ficara preso na garganta naquela noite difícil. Só não chore, porque as lágrimas os molham e os desejos não voam. E se não voa, não se realiza. Lembra que era essa a regra? As memórias não me escapam, e não que eu queira apagá-las, só que essa enchente de lembranças quase me afogou. Hoje, quando aquela música me pergunta onde é o meu lar, respondo que meu lar sou eu. Sempre foi, eu sei, me desculpe ter cantado tão alto refrões falsos. Os versos continuam tão bonitos, trazem aquela coisa boa que ficou. E ficará. 

Mas eu nunca gostei de casas, você sabe, são difíceis de lidar. Apartamentos são mais práticos, e portanto eu fico aqui agora, trocando os números e letras entre os andares de um prédio novo. 

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