dezembro 28, 2016

Fecha o bar



Fecha esse bar. Tranca a janela. Rasga logo a última folha do calendário. Adianta o relógio que não passa. Diminui as 96 horas que ainda faltam. O oxigênio está em estado crítico, as mãos já tremem e as pernas recusam-se a se mover. Não consigo mais. Não há quem consiga. As perdas foram poucas, mas significativas. E aqueles que sobreviveram, talvez não tenham de fato. Estamos respirando. Há sangue pulsando nas veias. As funções vitais ainda continuam. Mas eu não.
Eu fiquei. Os trezentos e tantos (mil) dias desse ano me dilaceraram em todos os seus minutos. Os segundos finais torturam minhas entranhas. A acidez dos dias corrói meu ser. Eu não consigo mais. Os pedaços de mim caem a cada passo e já não quero mais tentar recolher os que restaram (e algum restou?). Minha sanidade se esvai conforme todo esse ar poluído me consome. Me perco nas ruas, troco os nomes, esqueço quem sou. No que me tornei? Qual o resultado que levo desses dias? O que restou de mim não responde. Eu não me escuto mais. 
Escrevo agora em uma tentativa falha de arrancar tudo que dói, fede e apodrece em mim. Eu, podre, quebrada e vazia. Eu, que já não consigo escolher frases e dividir parágrafos de forma coerente. Eu, que desisti daqui. Eu que me perdi e não consigo mais voltar. Meu caminho foi apagado, minha casa não existe, meu destino está escuro. Há sempre uma irônica luz no fim dos túneis, mas eu não quero abrir os olhos.
E eu quis recusar abrir os olhos tantas vezes. Imaginava um carro desgovernado em uma estrada qualquer, na volta do trabalho, no caminho sem destinos. Uma pressa absurda para que tudo acabasse. Mas não acabou. As ruas da cidade se acostumaram com meus olhos inchados e soluços, o travesseiro nunca mais secou, meu corpo continua salgado das lágrimas durante o banho. 
Gritei em microfones, mas estou muda e oca. Minha voz abandonou meu corpo, assim como muitos outros. Tive quedas e recusei todas as mãos que apareceram. Para que levantar? Cada queda quebrava todos os meus ossos, dilacerava minhas veias e minha cabeça se partia em dois. Estava com meu corpo inteiro em "fratura exposta" e ainda assim me viam em códigos. Eu fui o algoritmo não decifrado e esquecido em um livro de fórmulas antigos que ninguém mais tem vontade de estudar. Não há o que estudar em mim, o mistério se foi, os olhos de ressaca sobraram por pura melancolia. 
Preenchi meu corpo com rabiscos porque queria que doesse de uma forma menor do que todos os outros dias. Mas nunca doía. A agulha rasgando minha pele era um arranhão e todos os outros dias um acidente fatal. A água fervendo em dias de verão queimavam e me sufocavam por horas. Minha pele, vermelha e com pequenas queimaduras continuou a se curar após um ou dois dias. Minhas unhas enfiadas nas minhas coxas e barriga cicatrizaram logo em seguida. Meus olhos perdiam o inchaço na manhã seguinte. Mas e eu, por que deus, eu não cicatrizava nada do que doía por dentro? Por que o vazio nunca foi preenchido? Nem mesmo agora.
As pessoas se perderam nos meus labirintos. Hoje busco refazer seus passos, reencontrar pistas nas esquinas de mim, mas eu estou seca e não há mais labirinto nenhum. Estou parada no centro, olhando cada milímetro pela centésima vez no dia, e garanto mais uma vez meu oco. Um grito mudo sai do que restou de mim, com uma esperança tão mínima que não deixa a palavra sair da minha boca. E como em um filme eu vejo todos seguindo seus caminhos, com rotinas e companhias, eu vejo o riso sair de suas bocas mas eu não escuto mais. Meu riso morreu, e com ele tantas outras coisas. 

Estou aqui, como quem tivesse sido nocauteada, mas a agressão veio das minhas mãos. Os arranhões foram meus, os tapas e socos vieram dos meus ossos inchados. 
Estou sem forças, sem coragem para pedir que me colem, porque o dano é irreparável.

Espero a contagem final (talvez a minha própria). 

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