abril 05, 2015

Jogo de cartas


Querido,
Faz tempo que não venho por meio desta te dizer coisa alguma. Na verdade tenho fugido de cartas, elas sempre se tornam pessoais demais e já ando dizendo muito de mim mesmo sem querer. Mas hoje é justamente esse assunto que me aflige e preciso achar um método de contar tudo, sem na verdade deixar todas as cartas na mesa. Enquanto escondo algumas na manga, no bolso embaixo da mesa, tenta olhar. Dá uma olhada de canto de olho e não perde nenhum detalhe, olha bem que agora mesmo eu tô deixando uma cair perto do seu pé esquerdo, é só um teste. Repara nos cantos, pontos e vírgulas. Analise a sintaxe da oração, tem vezes que os sujeitos se mesclam e mudam, por favor, não perca essa chance de me ler com os olhos bem abertos.
As coisas andam fugindo do controle, há noites que agradeço estar no último quarto, pois assim poucos ouvirão os gritos surdos que abafo inutilmente. Não há perdas de grande nome, não há ninguém em específico que tenha feito algo, talvez sinta-se culpado, mas não te digo que é 100%. Os 99% cabem à mim, que nunca soube desabafar com ninguém e acabo explodindo em um fim de semana que me trouxe tanta carga. Esperava aqui uma duplicação do ano doce, mas a realidade viera amarga demais. Não olha agora, mas tem uma carta que ficou presa entre as caixas, foi mais uma, não perde essa, é pra você. O doce está escondido entre as suas mãos, que marcaram estas páginas de uma forma que ainda consigo sentir seu cheiro enquanto as rasgo em tinta. 
Veja, já fugi ao tema. Não consigo manter-me no centro, tem sempre segundos e terceiros que merecem discussão. E por mais que eu esteja literalmente no centro deste labirinto, sinto que é preciso explicar os demais caminhos. E querido, você sabe, sempre procuramos tantos caminhos para fugir daqui. Só que você ainda não encontrou aquela pista que segue direto para minha direção, eu te repito num sussurro toda vez que é sul. É sempre sul. Venha! A carta foi colocada na minha manga dessa vez, é tão clichê, mas a situação também. Olha só, acabei falando demais. Há tantos parágrafos e ainda não consegui explicar a minha dor. Talvez seja exatamente isso, o não conseguir.
A minha dor é essa meu bem, eu não sei falar de mim. Eu não sei te explicar como sofro entre madrugadas e corredores, como enfrento dias contando os minutos para o fim, como cada semana só vale seus finais, e como cada mês atrasa a passagem para um novo ano. A minha espera é eterna meu amor, mas a esperança renasce a cada vez que penso em você. 

Com todo amor que me resta,
Sua.


De volta às origens.

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