março 05, 2015

Pesadelo particular


Reconheço os sintomas e prevejo que mais uma vez haverá uma crise. E pelas circunstâncias não será das mais simples e passageiras. O relógio já bate muito mais que meia noite, a música se repete em uma altura não permitida e numa quantidade de vezes repetidamente não saudável para qualquer sanidade. Foi há algumas horas atrás, enquanto assistia um filme qualquer, fui sentindo que logo começaria. Primeiro consegue-se ignorar com uma piada ou uma conversa aleatória, mas após um tempo não há mais com quem conversar e piada nenhuma tem graça. 
E assim começa mais uma. O mesmo ritual ocorre sem que eu nem perceba, meu corpo não obedece e apenas sigo ordens de alguém que me invade. Dessa vez é diferente, não há um segundo ou terceiro alvo, na verdade não há nenhuma placa indicando aonde acertar. Estou caminhando a esmo por uma estrada escura, sem pistas, aguardando algo, alguém, o fim. Então em uma curva aparece um espelho e quando me fito encontro o alvo. A placa está em mim. Hoje sou vítima de mim. Isso me alivia e me aflige, lidar comigo nunca foi fácil. Ainda mais assim, sem um corpo para me apoiar no fim. 
Hoje deixo que o espelho me atire todos os meus medos, que mostre pra mim o verdadeiro pesadelo que escondo embaixo dos travesseiros. Permito que me aflija com as minhas próprias palavras rabiscadas em folhas escondidas, que me molhe com todas as lágrimas que certa vez impedi que saíssem. Mas que não me afogue, pois o ar está esvaindo mais depressa do que imaginei e logo a água atinge o nível do meu pescoço. Ao invés de parecer estar cada vez mais presa em algum lugar pequeno, sinto-me inteiramente livre em um mar imenso. E isso me apavora. 
A tal da solidão, a maior das vilãs, poderia agora sussurrar no meu ouvido alguma das suas ladainhas de sempre. Mas a única voz que escuto é a minha, que me conta mais uma vez todas as vezes que isso me doeu, detalhando finais e sentimentos alheios. Eu, tão confiante de mim, na verdade tenho medo das minhas próprias palavras. O que estou dizendo? Por que é tão assustador ouvir a verdade de si próprio? Não era para acontecer, nenhuma das vezes, e nem era pra ser assim, desculpa. E eu me desculpo pra quem? Não há ninguém aqui, além de mim. E ainda não sou capaz de me perdoar, porque sei que a história se repete. Amanhã talvez não, mas depois, no próximo mês quem sabe. 
Agora me ergo novamente com a força que finjo ter, olho no espelho limpando as últimas lágrimas que permitirei que caiam essa noite, encaro-me e digo a mim que é a última vez. É sempre a última. Sigo o caminho de volta, com passos firmes e mãos trêmulas, um sorriso amarelo e um coração murcho. No fundo a gente sabe que o medo não vai embora, ele se esconde dentro do armário ou embaixo da cama, e vez ou outra aparece para nos assustar. Não há feitiço que o transforme em algo ridículo, pois de ridículo já basta ele próprio.

Ou ridícula já basta eu, que não me canso de repetir essas mesmas cenas. 

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