janeiro 26, 2015

Palavras ao mar


Com as memórias que consigo resgatar entre uma hora e outra vou te recriando. Já não sei qual é o traço que delimita seus olhos e o modo como seu sorriso se forma, mas jamais confundiria com nenhum outro. O desenho das tuas mãos não se completam, meus dedos soltos pendem sob os teus mal rabiscados nessa folha de papel. A sua voz vez ou outra ecoa pelos cantos, mas já não entendo suas palavras. O que você está querendo me dizer? Escreve no céu, rabisca nas nuvens, sussurra para o oceano e pede para as ondas trazerem sua mensagem. E quem sabe até você.
Estamos ambos nessa corda bamba quilométrica que ainda se mantém firme em poucos e finos fios. Será que é possível? Há tantas turbulências que às vezes tenho medo. Mas não é da altura, você sabe, essa coisa toda de aventura só me assusta se eu deixar de te ver, mesmo que minimamente, caminhando comigo na mesma direção. Ou que sejam opostas, aí a gente se encontra de uma vez e esquece essa história toda de memórias. Porque por mais bonito que seja tudo isso, por mais que eu goste tanto, a tal da vida é bem mais bonita e colorida. É bonito recordar, relembrar, mas é preciso também ter do que se lembrar.
E eu quero lembrar você com todos os mínimos detalhes dos teus poros, traços e jeitos. Redecorar o modo como sua risada soa quando falo bobeiras propositalmente, recolorir o brilho dos teus olhos nas páginas velhas e desbotadas da minha memória, redescobrir as suas manias e manhas, só para me irritar mais uma vez e depois rir porque até disso a gente acaba sentindo falta. São tantos detalhes que talvez você deva correr, mesmo nesta corda fina e perigosa, a minha mão está aqui caso precise. Corre, segue aquele conselho antigo de não olhar pra baixo, que a gente metaforiza com o "não olhar pra trás" porque não é preciso mesmo. O destino é "enfrente". 
Canta comigo aquela calminha, que dizia algo sobre viajar o mundo procurando sabe-se lá o quê, e descobrir "que o que falta em você sou eu", "que eu te quero é agora e não posso e nem vou esperar". Tá tocando agora, nesta ponta sul da corda cantarolo baixinho esperando que algumas notas, mesmo que soltas, ressoem na outra extremidade e te guie pelos quilômetros que faltam. A turbulência parou, aproveita e chega. 

Textinho de férias, adeus mar. 

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