novembro 21, 2012

De ressaca


Depois de tanto ler Machado descrever os famosos olhos de ressaca de Capitu, olho-me no espelho e vejo as ressacas. Não há aqui a cor do mar, muito menos o agito das ondas, mas sim olhos fundos, dos quais passaram pelo pior dos tsunamis. Olhos tristes, marejados e calmos. A palavra tranquilo não cabe, seria mais adequado cansado. Olhos cansados de olhar. Vê se pode, olhos cansados de olhar? Mas é isso, cansados de se abrirem dia após dia. E cansados de imaginar cenas enquanto fechados. Talvez não sejam os olhos, mas sim a mente. Mente de ressaca. Mente cansada. Eu, cansada, querendo apertar um botãozinho de "stop" e ligar só mais tarde. Amanhã, depois, ano que vem talvez... Deixar que os dias passem sem que eu tenha que ver nada, pensar em nada, só ficar assim, esperando o tempo levar. Me levar. 
Mas até o tempo está de ressaca. Ele já não sabe se quer mesmo me levar pra algum lugar, diz que meu lugar pode ser aqui. E se eu não quiser ficar? Atrasa os minutos pra que o dia dure mais, a tortura de olhar me toma. Por que, tempo? Por que? Não podemos adiantar essa agonia e partirmos agora? Só uns 10 anos, coisa boba, você sabe que é preciso. Não, não me importo com os detalhes que perderei, só acelera. Corra os ponteiros nesse relógio velho e diga que tenho pressa. Pelo menos me tire dessa agonia do presente, traz o futuro de presente no natal. Ou o traga. Você sabe, o tempo tá doendo em nós também. O tic tac sempre foi dolorido de se ouvir, a música proibida, cada dia é um quilômetro a mais. Daqui a pouco estou em Marte e ele aqui na Terra.
Meu coração tá de ressaca. De tanto beber amor acabou se enchendo, quer sair por aí e fazer besteiras como quem pega o carro depois de uma festa. Quer atropelar sem culpa, deixar feridos e não parar pra ajudar. Quem nunca teve, quando tem, acaba exagerando. Lutei bravamente contra isso, fui forte ao extremo, mas não foi suficiente. É um abraço aqui, um ombro acolhedor naqueles dias difíceis, as risadas em dias que nada tem graça... É o amor querendo dar as caras e eu correndo pra fechar a porta antes do desastre. Amor é como ventania, desarruma cama, quarto, cozinha e banheiro. Destrói músicas, aparelhos, filmes e livros. Corrói paredes, ruas, esquinas e bares. E agora que ele entrou, me embebedou e deixou meu coração assim, de ressaca. Me deixou assim, chorosa. É dos piores bêbados que já vi, me conta até da roupa que usava naquela noite de sexta. Conta, desconta, e desaba. Ambos desabamos, porque meus olhos, já de ressaca, o acompanha numa noite difícil de conter. 
Ter uma mente de ressaca é a pior das dores, exatamente por não doer como se espera. A mente não é como os olhos, que desabam quando menos espero. A mente calcula o momento certo de trazer á tona todos os detalhes, de relembrar as cenas do passado, fixar-se no presente e fazer com que o futuro seja algo almejado. Chega logo futuro! Chega logo novo ano, e traz uma mente nova também. Renova meu coração, minha alma. Traz uma pontada de ânimo pra essa vida totalmente dispersa num calendário sem datas, perdida numa cidade sem mapas. Eu, inteiramente de ressaca, me prendo na pontinha de esperança sóbria que mantive escondida. Mas é tão pequena, que nas últimas noites não encontrei, e deixei me levar pelo desespero. O quarto é grande demais, vazio demais. O coração reclama, quer um afago. Os olhos choram. O corpo inteiro desaba nessa cama que já traz o desenho do meu corpo no colchão velho por não me levantar mais.
Essa é uma escrita de ressaca, palavras regurgitadas de uma mente que mal sabe transformar linhas em parágrafos, mas que vive querendo vir aqui. Pra que cismar com isso? Uma mente de ressaca escreve tanto quanto uma criança que acaba de ser alfabetizada no primário. Sabe o que dizem, não é? Que só quem é fraco fica com uma ressaca dessas. Pois bem, apresento-me a mais fraca de todas. Não, eu não sei suportar todo esse peso do mundo numa boa. O problema não é você, não são os dias, nem a escola ruim ou o cursinho entediante, o problema é em mim. Comigo sou só eu. Então deixa, mais dias ou menos dias eu volto. 

Entre um desabafo e outro a gente se vê por aqui. 

2 mini memórias:

Status: Morrendo de chorar depois de ler esse texto, encaixa tão bem no momento.
Em algumas coisas que aconteceram comigo esse ano e tal.
Caraca, não sei o que dizer, não consigo! =/
Por mais forte que seja uma ressaca sempre é passageira...

Postar um comentário