abril 05, 2012

Poltrona 38


Só queria conseguir entender porque comigo tudo sempre é do avesso. Minhas roupas não se enquadram na moda, meu cabelo não pertence ao estilo atual e minhas músicas vivem indo e vindo dentre as épocas. O problema está em mim que vivo fora das linhas, ou das linhas que vivem fora de mim? Todo mundo parece tão certinho no seu lugar, cada qual com a sua poltrona identificada e numerada exatamente como querem, eu fiquei sem lugar. Na dança da cadeira eu sobrei e agora corro em círculos entre todos esses que estão sentados enquanto a música toca. Também quero um lugar quentinho ao lado de uns sorrisos conhecidos. Quero uma pipoca e refri pra acompanhar enquanto assisto a minha vida, será que nunca vou conseguir? Serei sempre a da fila de espera? Mas eu nem gosto de esperar.
Então eu vou pra casa. Mas essa é mesmo minha casa? Eu não deveria sentir um aroma diferente e uma sensação de aconchego quando atravessasse a porta? Sinto como se estivesse hospedada nesse hotel por um tempo até que eu cresça e encontre o meu lar. Aquele lugar onde eu cuidarei de cada plantinha, terei meus gatos e cachorros, meus livros, minha bagunça na mesa da sala e minha cozinha com louça para lavar. Enquanto isso aproveito meus dias nesse hotel onde tenho a várias refeições, carinhos, festas, amor, viagens, e também alguns gritos e discussões vez ou outra. Só que eu sempre quero ir embora. Eu sempre odeio esse negócio de voltar. Não posso ir para sempre? Sonho tanto com o meu lar, a diária aqui tá ficando cara pra minha cabeça, não sei se conseguirei pagar a conta. 
Os dias passam e eu acelero o relógio. Vamos, mais rápido, quero o amanhã. É meu último ano, as pessoas todas sentadinhas já estão com lágrimas nos olhos no início do filme e eu vigio as horas no celular que custa em me avisar que ainda tenho que esperar. De novo. Mais tempo. Não aguento! Por que é que eu também não tenho lágrimas? É meu último ano assim como de todos vocês, eu sei que não tenho lugar, não uso essa roupa estilosa e meu cabelo está meio largado ultimamente, mas, cara, eu vivo também. Eu sinto. E muito. Eu sinto ao máximo todas as coisas, e não sinto-as também. Tem coisa que eu simplesmente ignoro, não vale a pena, o coração já tá lotado e não precisa de mais cortes. Só que tem hora que eu sinto uma falta de ser assim, normal. 
A luz acendeu, o pessoal já está se levantando, se abraçando, desejando felicidades e fotografando cada último segundo. Assisto isso pela janela, já saí. Não aguentei assistir, a vida parecia me gritar e eu não consigo suportar toda essa coisa de ser normal. A passagem está em mãos, o destino está vazio, o coração vibra. Viro para o lado e consigo ver ao longe o meu hotel, é, aquele mesmo das inúmeras refeições e amor, finalmente paguei a conta. Consegui. Uma única lágrima cai, limpo-a num movimento rápido e sigo em direção a estação. O trem já está vindo, vejo casais se despedindo, famílias se abraçando, e eu ali, apenas comigo. Eu sempre comigo. E agora, finalmente, eu tinha um lugar. Minha poltrona é a 38. 

Eu só queria agora estar nessa poltrona 38 sem destino algum, só indo. Fui!

Oi gente, como estão? Então, fiz minha inscrição para UEM essa semana, coloquei psicologia ao invés de medicina, até porque medicina é quase que impossível e eu nem comecei meu cursinho ainda. Seria demais eu pedir para torcerem um pouquinho por mim? hahaha. Espero que gostem desse texto, cada vez que leio interpreto diferente, mas enfim, é isso. Ahh, eu dei uma mudadinha ali na página Memoriadora, vejam lá. Beijos no coração!

5 comentários:

Bia Oliveira disse...

TEXTO LIN-DO LARINHA!
Parabéns pelas palavras lindas e boa sorte na UEM! Só fiquei tristinha por você não poder escolher o que realmente queria ):
Beijos! <3

Elania disse...

Lara, às vezes a gente mesmo se sente desconfortável na nossa própria vida , que foi como eu vi você retratando no texto (lindo, por sinal.), mas essa nossa mania de achar que nenhum lugar é o nosso nos deixa mais estranhos e alheios ao que temos!
Tudo é tão lindo e tão nosso...
Um beijo. E boa sorte *-* rs.

Luiza disse...

Essa sensação de não ter um lugar ou não se enquadrar, é bem ruim. Tenho dias que passo pensando não ser desse mundo, pois não consigo me adequar ao que todo mundo pensa, é difícil não ser tão normal assim. Mas faz da gente diferente e especial, quase única. Esse nosso sentir faz da gente autêntica, nos destaca, mesmo que não percebamos. E uma hora, dobrando a esquina ou entrando em um ônibus, achamos nosso lugar. Ele é dentro da gente, quando as coisas começam a se encaixar e encontrar o local certo pra se instalar. Beijão

Everton Rodrigo disse...

Apressar o tempo para depois querer atrasá-lo. Quando somos jovens e moramos em hotéis feito esse que tu falaste não vemos a hora de dar um basta e sair porta a fora e voltar somente de mês em mês, quiçá de ano em ano. O problema é quando o tempo voa e não percebemos. Vamos querer voltar o relógio o tempo todo e saber que ele só vai andar pra frente, sempre nos contrariando.

E parece ser uma sina, mas jamais vamos nos enquadrar ao padrão bonito e social de ser, sempre estaremos ouvindo canções fora de moda e vestindo roupas da década passada.

Belo texto! E obrigado por curtir o Boemia Ilegal! Sinta-se a vontade para comentar o que quiser.

;*

Marcela B disse...

Essa sensação de não se encaixar, de estar fora do lugar é terrível mesmo, mas acho que dá pra superar.
Esse texto está incrível. Eu fico lendo e relendo pra ver se eu aprendo a fazer uns textos assim. Eu nem sei dizer como eu gostei desse texto.
De toda forma, você escreve bem sempre e eu te admiro muito. Beijos