agosto 05, 2013

A mesma



Caro leitor,
Aqui quem fala sou eu, a mesma. Mesma figurante, mesmas palavras, mesma saudade, mesma eu. Mas a mesma que de mim não tem mais nada. Essa aliteração em M não vai dar amor, amar, amado, amávamos  pois na verdade nunca amei de verdade. Porque de amor estou farta, amor é essa coisa que deixa a gente louco aos poucos, e talvez a minha loucura já esteja suficiente em mim. Mim mesma. Que de mim já não me encontro muito. Na verdade é exatamente esse o motivo dessas mesmas palavras, essas aqui, grafadas agora, procuram uma solução para o amontoado de equações que me rodeiam. Mas sabe, eu odeio números. Por que equações? Já dizia Calvin certa vez que a matemática é como uma religião, onde dois números fundem num terceiro, que é preciso ter fé e só é compreendido por quem acredita. Então fujo mais uma vez da religião que me cerca. Não acredito em números, padres, oratórias repetitivas e todo esse blá blá blá aos domingos, mas na matemática eram nas terças e quartas. Cê sabe alguma coisa de número, moço? Me diz aí como é que eu faço pra resolver quando o coração quer somar mas a conta pede o sinal de menos. Tô precisando subtrair, mas retirar os elementos nunca é fácil. Precisa ir abaixando um de cada vez, não é? Não tem alguma coisa de achar um relativo pra que eles se cancelem? Onde eu acho um relativo que me cancele? Tudo bem, eu já imaginava que a minha letra é difícil e não há ainda na lista algo que me complete. Não, fica tranquilo, não vou chorar gritar ou espernear, só talvez choramingar um pouco em casa depois. Mas é só mais tarde, vou colocar Caetano e ele chora comigo. 
Há tantas letras, algarismos nunca vistos antes resolvem aparecer e rodeiam-me como se eu soubesse dessas coisas. Onde é que a gente preenche a área de estudo? Acho que erraram alguma coisa, tão me achando com cara de exata. Logo eu, tão humana. Tão errônea e explicativa. Tô aqui querendo formar palavras com as letras que me aparecem, enquanto essas só querem se juntar em mim para possíveis contas. E eu odeio tanto contas. Digo que prefiro conversar, tentar uni-las para que seja possível ler uma frase ou outra, mas elas nem sempre colaboram. Recusam-se a montar um diálogo bobo que seja, querem sempre mais, e eu aqui pedindo menos, por favor, um pouco menos... Ou mais, mais compreensão. Mais argumentos. Mais elementos de ligação entre eu e o mundo que me cerca. Mais eu mesma, e não só a mesma. E menos, muito menos... Menos peso, menos algarismos, menos medos. Menos eu. Porque andei pesquisando e vi que tem uma grande chance dessa tal de "mesma" ser eu mesmo. Então menos eu. Mais essa nova pessoa que resolveu alojar-se aqui, nessa baderna que chamam de mim. Como é que se consegue viver no meio de tantos algarismos? Olhe só, aqueles dois ali, parecem que vão se matar uma hora ou outra. Ah, e menos sentimento, sempre menos. Sentimentos só servem para embolar um algarismo no outro, e as equações crescem, multiplicam-se, triplicam-se, mas nunca resolvem-se. Ninguém nunca me resolve. Eu nunca resolvo o problema que há em mim. Mas, afinal, qual é problema? De mim ou da mesma? 
Ah, quer saber, cê não tá com cara que sabe muita coisa. Desculpa, não quis ofender, sei que a culpa não é sua. Nem minha. É minha? Olha moço, tô meio confusa, mas vai passar. Meu quarto tá aqui com umas toalhas pela cama, roupas no chão e sapatos amontados no canto. Minha vida também. Tem umas pessoas amontoadas que ainda não sei como guardá-las no armário novamente, tem outras espalhadas na cama, no chão... Como recuperar cada peça? Tem umas que não servem, nunca serviram mas não sei ainda como doá-las. Não quero. Tem como guardar tudo? Tem como manter essa bagunça que vivo? Não tem amigo leitor, eu sei que não. Tô só querendo um consolo por essa noite, só mais essa. Fica, deita aqui comigo, eu jogo pro lado esse moletom cinza que tá deitado só pra você ficar mais um pouco. Não me pergunta não dessas camisetas pretas espalhadas, parecem que são várias mas na verdade é um só. É sempre o mesmo, que vive indo e vindo e aparecendo e nunca sumindo. Esse não dá pra doar, preto é aquela cor que combina com tudo, tantas noites salvas por essa camiseta preta que apareceu e serviu tão bem. Deu saudade de usar ela novamente. Tem roupa que a gente só vê e acha bonito, mas não fica bem, já tem outras que parecem até ter nosso molde. Esse aí tem moço, ah, se tem... Mas deixe pra próxima carta, porque o tempo é curto e a minha procura é longa. Talvez eu acabe me encontrando embaixo de um sapato velho, próximo do moletom cinza, ou até mesmo dentro dessa camiseta preta. Porque tem gente que parece ser exatamente assim, feito pra nós, porque no fundo no fundo guarda um pouco da gente. 
Será que te guardo comigo também? 

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