setembro 24, 2011

Trancada



Já fazem alguns anos que vivo pra dentro, algo meio fechado a lá Dom Casmurro mesmo, mas antes que a Capitu me traísse com Escobar já comecei a anotar minhas memórias pra futuros. Como ele, eu penso que poucos hão de ler algo como isso, meio sem nexo, pretexto ou propósito. Sou só eu, como tu viras na sua semana passada e não olhara. Só eu, como passei por ti na fila do mercado e tu nem me ajudara com a lata de milho que caíra da minha cesta. Só eu, que te amei desde os princípios até os fins e tu não vira. Cheia de remorsos, marcas, mágoas, lágrimas... Onde fora a juventude que nunca veio? Carrego a certeza que sou dos avessos, minha juventude virá junto com a velhice e a morte, enquanto que vou crescendo e trazendo a falta de vida.
Leio muito, ouço velharias no toca-disco por dias, vivo ás nostalgias. Minha voz se esconde, farão semanas que me resumo a acenos de cabeça pra desconhecidos na rua e a moça da biblioteca, já até esqueci como é minha gargalhada pra dentro e meu sotaque meio falso do sul. O espelho tá tampado, não me vejo, me escondo de mim. Sinto vergonha do que me tornei, do que não fui e deixei abalar, fui fraca. Aos trapos, sem cuidados nem por dentro nem por fora, vou vivendo os dias sem a tua presença.
Eu, que não lembro mais o som da minha voz, guardo a tua no meu ouvido pra ouvir cinco minutos antes de dormir. Mas aí eu choro, não te aguento cantando, e muito menos rindo, como faz no fim da gravação onde eu lembro muito bem que eu caia no teu colo e começava a te cochichar bobeiras no canto do ouvido te atrapalhando a cantar uma de suas melodias melancólicas.
Haja ironia, eu que reclamava da tua melancolia hoje me tornei um poço cheio delas. Tu é que roubara a minha juventude, a minha força, o meu amor. Peguei a mania de escrever de madrugada, colocar a tua gravação pra tocar e ficar chorando com as lembranças e o copo de bebida. Pra quem não bebia me passo bem por uma alcoólica, nunca pensei que amar teria tantas reações adversas assim, se soubesse desde o princípio nunca deixaria tu ter entrado aqui em casa pra concertar a encanação. Foram os canos, a pia, a mesa da cozinha, eu.. Mas aí eu quebrei de novo, a mesa tá com a perna bamba, e os canos voltaram a vazar. Tudo precisa de você.

Gostei tanto desse texto quando o escrevi, não sei porque, mas quanto mais o leio, mais maneiras diferentes consigo enxergá-lo. Não sei se tem alguém aqui que sente falta dos meus escritos, mas olhe, eu posso ter parado de postar aqui, mas escrevo sempre. Clica aqui e leia meus textos do dia-a-dia. spero que gostem, beijos!

9 comentários:

AquilesMarchel disse...

sou fã de seus escritos escreve maisq ue bem
tem talento mas acompanhar no tumblr é ruim pq nao atualiza achoq devia postar aqui sempre eu curto sempre e esse texto é fenomenal

demais... temfacebook?
bjuos menina


senti uma melnacolia ao ler
meio que eu vejo melancolia em tudo

Gabriela Freitas disse...

quando falta uma parte não dá pra terminar não é?

Milena Lobo disse...

Sabe o que me encanta no sei jeito de escrever? O seu dom de descrever tudo tão bem que enquanto lemos a historia se materializa, em formas cores ou até mesmo a fata delas. Acompanho o seu tumblr, mas adoro ler seus textos aqui pois são em maioria mais extensos, gosto de contos bem detalhados como os que você escreve.
Beijos Lara.

Bruna Cerqueira *-* disse...

Eu estava com saudades de ler seus textos, como sempre, um lindo texto. Beijos

Sinueh Treslen disse...

Muito Bacana seu Blog !! Textos muito legais !!
Parabéns !! Visita o meu Blog também !! Abração
Sinueh Treslen

http://gotasdeelixirsagrado.blogspot.com/

@yasmin_vizeu disse...

Escrever é cheio dessas coisas mesmo: se apaixonar por um texto que escrevemos e relê-lo cinquenta mil vezes para em cada uma interpretá-lo de uma forma. É a maravilha da escrita, não?
Não tenho muito o que dizer do texto, porque mais uma vez ele está impecável. Você leva jeito pra coisa, Lara.
Beijos.

Ana Luiza Cabral disse...

É tão doce apaixonar-se pela nossa escrita, e realmente é um texto doce e adorável.

Pensei que voltasse só em novembro. Vi textos novos e abri um sorriso. Espero que esteja bem. Um abraço, ana.

Ariana disse...

Escreer é um vício bom né flor, também não consigo ficar sem escrever.
E o texto ficou realmente ótimo!


Beijos

Elania disse...

"Mas aí eu quebrei de novo."
Que texto inundado de melancolia, isso sim. Tão lindo, pesado, parece um desabafo, coisa que só se faz em meio a lembranças. Maldita nostalgia. ):
Bj linda.